quinta-feira, 4 de março de 2010

Eu sou o portal parte 5

Richard jogou a pá suja de areia na parte traseira do buggy e sentou-se fatigadamente ao
volante. A tempestade que se aproximava lançava sombras curvas e movediças ao longo da areia. A brisa
que se tornava mais forte jogava ruidosamente areia na lataria enferrujada do buggy. Meus dedos
coçavam.
― Eles me usaram para removê-lo ― disse eu, obtusamente. ― Estão assumindo o controle,
Richard. Estão forçando a porta, um pouco de cada vez. Uma centena de vezes por dia eu me vejo diante de algum objeto perfeitamente familiar ― uma espátula, um quadro, até mesmo uma lata de ervilhas ―
sem fazer idéia de como cheguei ali, estendendo as mãos, mostrando-o a eles, vendo-o como eles o
vêem, como uma obscenidade, como algo monstruoso e grotesco...
― Arthur ― interrompeu Richard. ― Não, Arihur. Não fale nisso.
Na obscuridade, seu rosto demonstrava desânimo e compaixão.
― Diante de alguma coisa, você disse. Remover o corpo do menino, você disse. Mas você não
pode andar, Arthur. Está morto da cintura para baixo.
Toquei o painel do buggy.
― Isto também está morto. Mas quando você entra nele, é capaz de fazê-lo andar. Seria capaz de
fazê-lo matar. Ele não poderia deter você, mesmo que quisesse ― repliquei, ouvindo minha própria voz
erguer-se histericamente. ― Sou o portal, será que você não consegue entender? Eles mataram
o menino, Richard! Eles removeram o corpo!
― Acho melhor você consultar um médico ― replicou ele em voz baixa. ― Vamos voltar.
Vamos...
― Verifique! Verifique o menino, então! Descubra...
― Você disse que nem mesmo sabia o nome dele.
― Ele devia ser do lugarejo. É um povoado pequeno. Pergunte...
― Falei com Maud Harrington pelo telefone, quando fui buscar o buggy. Se alguém neste estado
tem o nariz mais comprido que o de Maud, eu não conheço. Perguntei se ela ouviu falar no filho de
alguém, que não voltou para casa na noite passada. Ela respondeu que não.
― Mas ele é do local! Tem que ser!
Richard estendeu a mão para a chave de ignição, mas eu o detive. Ele se virou para fitar-me e
comecei a desenrolar as bandagens de minhas mãos.
Sobre o golfo, a trovoada murmurava e rugia.
Não fui ao médico nem tornei a telefonar para Richard. Passei três semanas com as mãos
envoltas em bandagens sempre que saía de casa. Três semanas esperando cegamente que aquilo
desaparecesse. Não era um procedimento racional; sou capaz de admitir isto. Se eu fosse um homem
inteiro, que não precisasse de uma cadeira de rodas em lugar das pernas, ou que levasse uma vida
normal com uma ocupação normal, eu talvez fosse consultar o Dr. Flanders ou procurasse Richard.
Poderia tê-lo feito, se não fosse pela lembrança de minha avó, isolada, virtualmente encarcerada, sendo
devorada viva pela própria carne infectada. Portanto, mantive um silêncio desesperado e rezei para
acordar algum dia de manhã e descobrir que tudo fora um pesadelo.
E, pouco a pouco, eu os sentia. Eles. Uma inteligência anônima. Eu nunca realmente tentei
imaginar como eles eram ou de onde tinham vindo. Era irrelevante. Eu era o portal deles, sua janela
para o mundo. Recebia deles suficiente feedback para sentir sua repulsa e horror, para saber que nosso
mundo era muito diferente do seu. Feedback suficiente para sentir-lhes o ódio cego. Não obstante, eles
observavam. Sua carne estava entranhada na minha. Comecei a perceber que me usavam, realmente me
manipulavam.
Quando o menino passou, erguendo a mão em seu costumeiro aceno neutro, eu tinha acabado de
decidir entrar em contato com Cresswell através de seu telefone no Ministério da Marinha. Richard tinha
razão a respeito de uma coisa: eu tinha certeza de que fora contaminado no espaço ou naquela estranha
órbita de Vênus. A Marinha me estudaria, mas não me transformaria num monstro. Eu não mais precisaria
acordar na escuridão cheia de rangidos e abafar um grito ao senti-los observar, observar, observar.
Voltei as mãos para o menino e dei-me conta de que não as enrolara nas bandagens. Na luz fraca
do crepúsculo, pude ver os olhos que observavam silenciosamente. Eram grandes, dilatados, com íris cor
de ouro. Certa vez eu esbarrara um deles contra a ponta de um lápis e sentira a dor angustiante subir
pelo braço. O olho deu a impressão de fitar-me com um ódio contido que era pior que a dor física. Não
esbarrei novamente.
E agora, eles observavam o menino. Sentia mente desviar-se. Um momento depois, meu controle
desapareceu. A porta estava aberta. Cambaleei pela areia em direção ao menino, minhas pernas
movimentando-se sem nervos, como uma tábua ao sabor das ondas. Meus olhos pareceram fechar-se a
passei a ver apenas através daqueles olhos estranhos ― vi um monstruoso panorama marinho de
alabastro, encimado por um céu semelhante a um imenso manto cor de púrpura; vi um barraco inclinado,
em ruínas, que poderia ter sido a carcaça de alguma desconhecida criatura carnívora; vi uma criatura
abominável que se movia, respirava e carregava sob o braço um objeto de madeira e arame, um objeto
construído de ângulos retos geometricamente impossíveis.
Imagino o que ele pensou, aquele pobre menino sem nome com a peneira sob o braço e os bolsos
estofados com um conglomerado de moedas sujas de areia perdidas pelos turistas, o que ele pensou ao
ver- me cambalear em sua direção com as mãos estendidas como um maestro cego regendo uma
orquestra lunática, o que ele pensou quando o que restava de luz incidiu em minhas mãos, vermelhas,
rachadas e brilhantes com sua carga de olhos, o que ele pensou quando as mãos fizeram aquele brusco
movimento no ar, logo antes de sua cabeça explodir.
Eu sei o que pensei.
Pensei que espiava pela borda do universo e via as labaredas do próprio inferno.
O vento fustigava as ataduras, transformando-as em bandeiras drape. jantes, enquanto eu as
desenrolava As nuvens tinham escondido o que restava do crepúsculo e as dunas estavam escuras,
cobertas de sombras. As nuvens pareciam correr e fervilhar acima de nós.
― Precisa prometer-me uma coisa, Richard ― declarei, acima do barulho do vento. ― Você deve
correr caso pareça que eu possa tentar... machucá-lo. Está entendendo?
― Sim.
Sua camisa aberta no pescoço chicoteava com o vento. O rosto estava sério, decidido, e seus
olhos eram pouco mais que órbitas no escuro.
A última atadura caiu.
Olhei para Richard. E eles olharam para Richard. Vi um rosto que conheço há cinco anos e passei
a amar. Eles viram um monolito vivo, distorcido.
― Você os vê ― disse eu, em voz rouca. ― Agora, você os vê.
Ele recuou involuntariamente. Seu rosto foi invadido por súbito e incrédulo pavor. Um relâmpago
iluminou o céu. Os trovões andavam entre as nuvens e o mar se tornara mais negro que o próprio Estige.
― Arthur...
Como ele era hediondo! Como podia eu ter convivido com ele, falado com ele? Não era uma
criatura, mas uma pestilência muda. Ele era...
― Fuja! Fuja, Richard!
E ele fugiu. Correu em saltos enormes. Transformou-se num andaime de encontro ao céu
ameaçador. Minhas mãos se ergueram, voando sobre minha cabeça num gesto gritante e estranho, os
dedos estendidos na direção da única coisa que me era familiar naquele mundo de pesadelo ― as nuvens.
E as nuvens responderam.
Houve o risco enorme, branco-azulado, de um raio que pareceu ser o final do mundo.
Atingiu Richard, envolvendo-o. A última coisa de que me lembro é o cheiro elétrico de ozônio e o
odor de carne queimada.
Quando acordei, estava placidamente sentado em minha varanda, olhando na direção da Grande
Duna. A tempestade passara e o ar estava agradavelmente fresco. Havia uma fina fatia de lua. A areia era
virginal nem o menor sinal de Richard ou do buggy.
Olhei para minhas mãos. Os olhos estavam abertos, mas esgazeados. Eles estavam exaustos.
Dormiam.
Eu sabia muito bem o que precisava ser feito. Antes que a porta se abrisse ainda mais, tinha que
ser trancada. Para sempre. Eu já podia notar os primeiros sinais de alteração estrutural nas mãos. Os
dedos começavam a encurtar-se... e a mudar.
Havia uma pequena lareira na sala e, na estação, eu costumava acender um fogo contra o frio
úmido da Flórida. Acendi um agora, agindo depressa. Não fazia idéia de quando eles despertariam para o
que eu estava fazendo.
Quando o fogo pegou bem, saí até o tambor de querosene e embebi ambas as mãos. Eles
acordaram imediatamente, gritando em agonia. Quase não consegui chegar de volta à sala ― e à lareira.
Mas cheguei.
Isso ocorreu há sete anos.
Ainda estou aqui; ainda observo os foguetes subirem. Têm sido mais numerosos, ultimamente.
Este é um governo com mentalidade espacial. Até mesmo já se fala em novas sondas tripuladas para
Vênus.
Descobri o nome do menino, embora não faça diferença. Ele pertencia realmente ao lugarejo. Mas
a mãe esperava que ele passasse a noite em casa de um amigo, no continente, e só deu alarme na
segunda-feira seguinte. Richard... bem, todo mundo achava Richard um sujeito esquisito. Desconfiam que
ele tenha ido para Maryland ou se amasiado com alguma mulher.
Quanto a mim, sou tolerado, embora goze também de grande reputação por excentricidade.
Afinal, quantos ex-astronautas escrevem regularmente a seus representantes eleitos, em Washington,
sugerindo que o dinheiro da exploração do espaço poderia ser melhor empregado em outras coisas?
Dou-me bem com estes ganchos no lugar das mãos. Sofri dores horríveis durante um ano ou
mais, mas o corpo humano é capaz de adaptar-se a quase tudo. Aprendi a barbear-me com eles e até
mesmo a dar o laço nos sapatos. E, como podem ver, minha datilografia é correta e fácil. Não espero
encontrar qualquer dificuldade para enfiar o cano da espingarda na boca e puxar o gatilho. Pois tudo
começou outra vez, há três semanas.
Há um perfeito círculo de doze olhos dourados em meu peito.

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