quinta-feira, 4 de março de 2010

Eu sou o portal parte 4

Tudo começou em Miami. Eu tinha negócios lá com um homem chamado Cresswell, investigador
do Ministério da Marinha. Ele vem checar-me uma vez por ano ― pois já estive o mais próximo que
qualquer pessoa pode chegar do material secreto referente ao nosso programa espacial. Não sei o que ele
procura; um brilho furtivo em meus olhos, talvez, ou uma letra vermelha em minha testa. Só Deus sabe
por que. Minha pensão é tão grande a ponto de ser quase embaraçosa.
Cresswell e eu estávamos sentados na varanda de seu quarto de hotel, bebericando drinques e
discutindo o futuro do programa espacial americano. Era cerca de três e meia. Meus dedos começaram a
coçar. Não foi nem um pouco gradual. Ligou-se de repente, como uma corrente elétrica. Mencionei o fato
a Cresswell.
― Então, você pegou alguma planta venenosa naquela ilhota escrofulosa ― disse ele, sorrindo.
― A única vegetação existente em Key Caroline são os palmitos repliquei. ― Talvez seja a coceira
dos sete anos.
Olhei para minhas mãos. Perfeitamente normais. Mas coçavam.
Mais tarde, assinei o mesmo documento de sempre ("Juro solenemente que não recebi nem
revelei e divulguei informações que...") e dirigi meu carro de volta à ilha. Tenho um velho Ford equipado
com freio e acelerador operados à mão. Eu o adoro ― faz com que me sinta autosuficiente.
É um longo trajeto pela Rodovia 1 e, quando saí da auto-estrada e peguei a rampa de saída para
Key Caroline, eu estava quase louco. Minhas mãos coçavam inacreditavelmente. Se você já passou pelo
sofrimento da cicatrização de um corte profundo ou de uma incisão cirúrgica, talvez faça alguma idéia do
tipo de coceira a que me refiro, tinha a impressão de que coisas vivas rastejavam e me perfuravam a
carne.
O sol quase desaparecera no horizonte e examinei cuidadosamente as mãos à luz do painel.
Agora, as pontas dos dedos estavam vermelhas, em pequenos círculos perfeitos logo acima da parte
carnuda onde estão as impressões digitais, nos locais onde ficamos com pequenos calos ao tocarmos
violão. Também existiam círculos vermelhos de infecção no espaço entre a primeira e segunda juntas de
cada dedo, inclusive o polegar, e na pele entre a segunda junta e a mão. Apertei os dedos da mão direita
contra os lábios e retirei-os depressa, com repentino nojo. Uma sensação de atônito horror surgiu-me na
garganta, lanuda e asfixiante. A carne onde os pontos vermelhos tinham surgido estava quente, febril, e o
resto parecia macio, mole e frio, como a polpa de uma maçã apodrecida.
Levei o resto do caminho procurando convencer-me de que realmente pegara algum tipo de
urticária, em algum lugar. Contudo, no fundo de minha mente havia outro pensamento terrível. Quando
criança, tive uma avó que passou os últimos dez anos de vida isolada do mundo num quarto do andar
superior. Minha mãe lhe levava as refeições e seu nome era um assunto proibido para nós.
Posteriormente, vim a saber que ela sofria da moléstia de Hansen ― lepra.
Quando cheguei em casa, telefonei para o Dr. Flanders, no continente. Fui atendido pela
secretária eletrônica. O Dr. Flanders estava fazendo um cruzeiro de pesca, mas se fosse urgente o Dr.
Ballanger estaria às ordens. O Dr. Flanders regressaria no máximo até a tarde seguinte.
Desliguei num movimento vagaroso e, depois, disquei para Richard. Deixei o telefone chamar uma dúzia de vezes antes de desligar. Depois disso, permaneci indeciso durante algum tempo. A coceira
piorava. Parecia emanar da própria carne.
Rolei minha cadeira de rodas até a estante de livros e peguei a velha enciclopédia médica que eu
possuía há anos. O livro se mostrou enlouquecedoramente vago. Poderia ser tudo, ou nada.
Recostei-me e fechei os olhos. Podia escutar o velho relógio de navio funcionando na prateleira do
outro lado da sala. Ouvi o ronco longínquo de um jato que se dirigia a Miami. E o leve sussurro de minha
própria respiração.
Continuei a olhar para o livro.
A percepção do fato foi lenta, mas, de repente, atingiu-me de modo assustador. Eu tinha os olhos
fechados, mas, ainda assim, continuava a olhar para o livro. O que eu via era a versão difusa e
monstruosa, distorcida, em quatro dimensões, de um livro. E, a despeito de tudo, a imagem era
inconfundível.
E não era eu o único que o olhava.
Abri bruscamente os olhos, sentindo um aperto no coração. A sensação diminuiu um pouco, mas
não inteiramente. Eu estava olhando para o livro, vendo as letras e diagramas com meus próprios olhos,
uma experiência cotidiana perfeitamente normal; mas também via-o de um ângulo diferente, inferior ―
via-o com outros olhos. Via não um livro, mas uma coisa estranha, algo de forma monstruosa e intenção
ominosa.
Ergui lentamente as mãos para o rosto, tendo a fantasmagórica visão de minha sala transformada
numa casa de horror.
Gritei.
Havia olhos observando-me através de fendas na carne de meus dedos. E, enquanto eu olhava, a
carne se dilatava e murchava, à medida que eles abriam implacavelmente caminho em direção à
superfície.
Mas não fora isto que me fizera gritar. Eu olhara para meu próprio rosto e vira um monstro.
O buggy apareceu no topo da colina e Richard o freou junto à varanda. O motor acelerado
roncava e pipocava. Rolei minha cadeira de rodas pelo plano inclinado à direita dos degraus normais e
Richard me ajudou a embarcar.
― Muito bem, Arthur ― disse ele. ― A festa é sua. Para onde vamos?
Apontei na direção da água, onde a Grande Duna finalmente começa a descer. Richard meneou
afirmativamente a cabeça. As rodas traseiras derraparam, jogando areia, e partimos. Eu costumava
espicaçar Richard por causa da maneira pela qual dirigia o buggy, mas não me dei o trabalho de fazê-lo
naquela noite. Tinha muito mais em que pensar ― e sentir: eles não queriam o escuro e eu podia senti-los
esforçando-se por ver através das bandagens, impelindo-me a retirá-las.
O buggy saltava e rugia pela areia em direção ao mar, parecendo quase decolar do topo das
dunas menores. À esquerda, o sol se punha no horizonte com uma glória sangrenta.
Bem à nossa frente, no horizonte, as pesadas nuvens de trovoada se encaminhavam para nós. Os
relâmpagos iluminavam o céu e os raios caíam no oceano.
― À sua direita ― disse eu. ― Perto daquele abrigo.
Richard freou o buggy, espalhando areia, ao lado das ruínas apodrecidas do abrigo de troncos e
folhas de palmeira. Estendeu a mão para trás e pegou uma pá. Fiz uma careta ao ver isso.
― Onde? ― indagou ele, sem expressão.
― Bem ali ― apontei para o local.
Ele saltou e andou vagarosamente pela areia até o local, hesitou um instante e logo enterrou a pá
na areia. Pareceu-me que ele cavou durante longo tempo. A areia que jogava por cima do ombro com a
pá parecia úmida. As nuvens ameaçadoras estavam mais escuras, mais altas, e o mar parecia raivoso e
implacável à sombra delas e ao brilho refletido do crepúsculo.
Muito antes que Richard parasse de cavar, compreendi que ele não encontraria o garoto.
Eles o haviam removido dali. Eu não colocara bandagens nas mãos na noite anterior, de modo
que eles conseguiram ver e agir. Se foram capazes de me usar para matar o menino, poderiam usar-me
para removê-lo, mesmo enquanto eu dormia.
― Não há menino algum, Arthur.

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