quinta-feira, 4 de março de 2010

Eu sou o portal parte 2

Suspirei e tentei acender o cigarro. Ele me tirou os fósforos da mão e acendeu para mim.
Puxei duas tragadas, inalando profundamente a fumaça. A coceira em meus dedos era de
enlouquecer.
― Muito bem -declarei. ― A noite passada, às sete horas, eu estava aqui, olhando para o golfo e
fumando, exatamente como agora, e...
― Recue um pouco mais no tempo ― pediu ele.
― Recuar mais?
― Conte-me a respeito do vôo.
Sacudi a cabeça.
― Richard, já repetimos isso muitas vezes. Não há nada...
O rosto vincado e enrugado era tão enigmático quanto uma de suas esculturas.
― Talvez você se recorde ― disse ele. ― Agora, talvez se lembre.
― Você acha?
― É possível. E quando terminar, podemos procurar a sepultura.
― A sepultura ― repeti.
A palavra tinha um som oco, horrível, mais sombrio que qualquer coisa, ainda mais sombrio que
todo aquele oceano através do qual Cory e eu velejáramos cinco anos antes. Escuro, escuro, escuro.
Por baixo das bandagens, meus olhos fitaram cegamente a escuridão que os curativos impunham.
Coçavam.
Cory e eu fomos colocados em órbita pelo Saturno 16, que todos os comentaristas chamavam de
Foguete Empire State Building. Era um enorme animal, realmente. Fazia o velho Saturno 1-B parecer um
brinquedo e era lançado de um bunker de concreto com sessenta metros de profundidade ― tinha que
ser, para evitar que arrasasse totalmente Cabo Kennedy.
Fizemos órbitas em torno da Terra, verificando todos os nossos sistemas, e depois acionamos os
propulsores. A caminho de Vênus. Deixamos um Senado em polvorosa, discutindo um projeto de
orçamento para posteriores explorações do espaço e um bando de pessoas da NASA rezando para que
encontrássemos alguma coisa ― qualquer coisa.
― Não interessa o quê ― gostava de dizer Don Lovinger, o menino prodígio particular do Projeto
Zeus, quando tomávamos umas e outras. Vocês têm todos os aparelhos, além de cinco câmeras, especiais
de TV e um lindo telescópio com zilhões e zilhões de lentes e filtros. Encontrem um pouco de ouro ou de
platina. Ainda melhor, encontrem alguns adoráveis homenzinhos azuis para nós estudarmos, usarmos e
nos sentirmos superiores.
Qualquer coisa. Até mesmo o fantasma de Howdy Doody já seria um começo.
Cory e eu estávamos ansiosos por atender, se possível. Nada funcionara em favor do programa
de profunda exploração espacial. De Borman, Anders e Lovell, que entraram em órbita ao redor da Lua em
`68 e encontraram um mundo vazio e ameaçador que parecia areia suja na praia, a Markhan e Jacks, que
pousaram em Marte onze anos depois para encontrarem uma vastidão árida de areia congelada e uns
poucos liquens raquíticos, o programa de profunda exploração espacial fora um dispendioso fracasso. E
houve baixas: Pedersen e Lederen, subitamente lançados em órbita eterna em tomo do Sol quando tudo
deixou de funcionar no antepenúltimo vôo Apolo. John Davis, cujo pequeno observatório espacial foi
perfurado por um meteoróide em um acidente cujas possibilidades eram uma em mil. Não, o programa
espacial não ia nada bem. Ao que tudo indicava, a órbita de Vênus seria nossa última oportunidade de
dizer: "Viram como tínhamos razão? "
Dezesseis dias de viagem de ida ― comemos um bocado de alimentos concentrados, jogamos um
bocado de buraco, trocamos um resfriado para lá e para cá ― e sob o ponto de vista técnico foi uma sopa.
Perdemos um conversor de umidade do ar no terceiro dia, ligamos o sobressalente e isto foi tudo,
excetuando alguns detalhes sem importância, até a reentrada da atmosfera terrestre. Vimos Vênus
crescer de uma estrela a uma lua em quarto-crescente e, finalmente, uma bola de cristal leitoso, trocamos
piadas com o Controle Huntsville, escutamos fitas de Wagner e dos Beatles, cuidamos de experimentos
automatizados que tratavam de tudo, desde medidas do vento solar até navegação no espaço. Efetuamos
duas correções do curso, ambas infinitesimais, e no nono dia Cory saiu da nave para bater no DESA
escamoteável até que este resolveu funcionar. Nada de extraordinário até que...
― DESA ― repetiu Richard. ― O que é isso?
― Um experimento que não deu certo. Jargão da NASA para designara Deep Space Antenna, uma
antena para uso no espaço longínquo ― irradiávamos impulsos de alta freqüência para quem estivesse
interessado em escutar-nos ― respondi, esfregando os dedos nas calças, sem resultado; na verdade, a
coceira deu a impressão de piorar. ― É a mesma idéia do radiotelescópio na West Virginia ― você sabe, o que escuta as estrelas.

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